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La gozadera

Martha Medeiros

Eu já havia gostado muito dos pensamentos e poemas publicados no livro Da Amizade, de Francisco Bosco, lançado em 2003. Pois agora, quatro anos depois, Chico lança Banalogias, um livro de ensaios que transforma o banal em filosofia da boa. Daqueles livros que nos mantém grudados até a última página e que abandonamos sob protestos.

Chico não se contenta com o aspecto periférico de nada e vai fundo buscar o que não se enxerga a olho nu: o maquiavelismo de algumas criticas contra Caetano Veloso, a desimportância das dedicatórias de livros, o reducionismo das sinopses de filmes, o que diferencia um golaço de um gol bonito, a necessidade da tristeza, a insistência em comparar letra de música com poesia e outros assuntos que ele aprofunda como um astuto arqueólogo do cotidiano. Entre os temas, destaco o delicioso A Ética da Gafieira em 15 Passos, de onde tirei o assunto para minha crônica de hoje, ou para o que resta dela. Chico Bosco fala que a exigência de o cavalheiro conduzir a dama, de ela ser conduzida, a obrigação de pensar na sequência de passos e tudo mais, confere certa rigidez e tensão aos bailarinos iniciantes, quando na verdade a dança de gafieira pede justamente o contrário. “É a conquista de uma liberdade – isto é, a conquista do erro – que possibilita o sorriso, a soltura, o improviso. Numa palavra, como dizem os cubanos, la gozadera.”

Agora me diga você, que vive contraído por causa das pressões sociais, das expectativas alheias, das ideias absurdas de perfeição que foram colocadas na sua cabeça, como é que ainda não se permitiu a conquista do erro? Está aí a chave para uma vida, senão mais feliz, ao menos mais divertida. Porque é do erro que surgem novas soluções.

Os desacertos nos movimentam, nos humanizam, nos aproximam dos outros, enquanto que o sujeito nota 10 nem consegue olhar para o lado, não pode se desconcentrar um minuto sob pena de ver seu mundo cair. O mundo já caiu, baby. Só nos resta dançar sob os destroços.

A escritora e filósofa francesa Chantal Thomas certa vez disse: na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer. O fato de você estar passeando, nadando ou comendo não significa que está tendo prazer, talvez esteja apenas obedecendo as leis severas do “tempo livre”. O que há de divertido em reservar uma mesa num restaurante da moda para daqui a três meses, em enfrentar filas intermináveis para ver uma exposição de um artista que você nem sabe quem é, em comprar uma bolsa caríssima que logo será vendida a R$ 10 no camelô e em praticar a ginástica do momento para não ficar desatualizada? Tudo isso são solicitações culturais, imposições de fora. O prazer está na intervenção da própria alegria.

O pai de Chico, João Bosco, há muitos anos sussurrou belamente em nossos ouvidos: são dois pra lá, dois pra cá. Vem agora o filho e gentilmente retira a ponta do torturante band-aid do calcanhar. Soltemos nossos passos e gozemos a vida.


Domingo, 16 de setembro de 2007.



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